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Feijão com goiabada

 

O título deste post era mesmo para ser provocativo e por trás dele vem outro questionamento.

Antes de torcer o nariz e exclamar arghhh… à combinação gastronômica proposta, a pergunta é: como saber se de fato não gosta de algo se ainda não provou?

Muitas vezes coisas que parecem não combinar ou fazer qualquer sentido podem surpreender.

Por registro sou protestante, mas fui criado num ambiente católico.

Ainda garoto e por influência de minha avó frequentava a igreja aos domingos, apenas não comungava.

Recentemente tive interesse e li alguns livros espiritas mas a religião com a qual mais me identifico é com o budismo. Não sou praticante, atuante e tampouco um profundo conhecedor, mas o que me atrai e aproxima de sua filosofia é o aceitar o outro, o verdadeiro respeito pela pluralidade.

Feita esta introdução chego ao meu ponto central de hoje.  Permita-se viver experiências ecléticas e inusitadas para abrir a cabeça e gerar novas oportunidades.

Recentemente num outro post, este tema foi muito bem abordado por Eduardo Matsushita, experiente profissional na arte de identificar executivos do C “level” para novos desafios profissionais. Eduardo compartilha que um dos fatores mais importantes para a felicidade e realização desses executivos é justamente a oportunidade de sair do lugar comum, aprender e viver novas experiências.

Isso me leva ao ano de 2013, quando por total surpresa recebi o convite para participar de um projeto de hospitalidade para a copa das confederações. Na época eu era o gestor de uma instituição sem fins lucrativos e o primeiro impasse seria me afastar por tanto tempo do meu trabalho já que o projeto exigia 35 dias corridos e “full time” no Rio de Janeiro. Vencido o primeiro desafio a questão seguinte foi me perguntar se teria capacidade de desenvolver as funções inerentes ao cargo, Gerente de operações no estádio do Maracanã. A despeito de um treinamento que seria ministrado antes pela empresa contratante, meu “background” na área operacional se limitava aos primórdios de minha carreira na hotelaria quando exerci as funções de mordomo, recepcionista e depois gerente de turno. Jamais havia trabalhado com estádios, eventos esportivos e não tinha a menor ideia de quem seria meu “report” direto, pares, equipe, salve uma única pessoa, ou seja, era mais ou menos mergulhar do trampolim dos 10 metros e no escuro, sem saber se a piscina estava totalmente cheia.

Aceitei,  pelo puro desafio de fazer algo diferente, testar minhas competências e limites.

A experiência foi muito tensa, estressante física e mentalmente. O relato mais detalhado talvez merecesse um post exclusivo, mas o fato é que passando a régua concluo que foi extremamente valido e de que sai melhor e mais fortalecido do que entrei nesse desafio.

O mais engraçado é que diversas vezes durante o projeto me perguntava: mas que diabos estou fazendo aqui? E só ao final me dei conta de que embora não fosse de operações, eu era uma ponte importante entre a cultura dos estrangeiros a cargo do planejamento e condução daquele projeto com os brasileiros que iam executar e entregar boa parte do produto final, o serviço. Este elo de comunicação que transcendia o idioma foi crucial para as coisas saírem. Tivemos sim muitos problemas, fiquei sim perdido muitas vezes, porém a missão foi cumprida.

Apenas para elucidar uma das ocorrências: A final desta Copa se deu no Maracanã, estádio onde trabalhei  e em que o Brasil era um dos finalistas.

A empresa pela qual fui contratada e responsável pelo programa de hospitalidade, leia-se programa de alimentos e bebidas e serviços de todas as áreas não públicas (do camarote da Fifa aos patrocinados) ao dimensionar a área para estocagem de gelo talvez não contasse com o fato de que o Brasileiro gosta muito de cerveja, e bem gelada. Por sorte entenderam essa dinâmica durante o torneio, mas ficaram apreensivos com um potencial problema na última partida.  Afinal não havia tempo hábil nem espaço físico para a instalação de novos freezers na área alocada para este fim e logo veio a dúvida de como resolver o problema. Eis que entra em cena o jogo de cintura e a criatividade. Não posso aqui revelar o que fiz para resolver, mas o fato é que na data da final, as 5 toneladas de gelo adicionais necessárias estavam lá e cumpriram seu papel não deixando nenhum cliente sequer dos 8 mil que foram atendidos simultaneamente durante os  345 minutos (2 horas antes, os 90 minutos + 15 de intervalo do e + 2 horas pós jogo)  sem a sua cerveja ou bebida preferida gelada. A única coisa que possa dizer é que de posse da informação e da necessidade, se não fosse o entendimento do “modus operandi” do Rio de Janeiro, do domínio da língua e da cultura local esse gelo jamais teria estado lá e seria um problema sério no final, com problemas irreparáveis para a imagem da empresa responsável, o que não aconteceu.

Nesses 49 anos tive o privilégio de morar na Alemanha, Estados Unidos, Austrália até me radicar no Brasil. Aqui já trabalhei para multinacionais, empresas familiares, instituições sem fins lucrativos e participei de duas “start ups”.  Viajei bastante, muito mais a trabalho do que por lazer, mas sempre encontrava um jeito de fazer pelo menos um programa local para conhecer coisas e especialmente gente diferente.

Se eu já provei feijão com goiabada? Não! Mas não vai faltar a oportunidade e quando ela surgir poderei emitir minha opinião com propriedade de quem ao menos provou.

(*) Nota de rodapé: o post já estava pronto e revisado, mas hoje domingo 20/09 – 15:31 estava lavando a louça do almoço e ouvindo pela TV uma rádio por assinatura em que tocava o estilo de música que mais gosto, Rock Clássico. Na programação uma música do BLUR. Passa minha filha mais velha que completa 9 anos agora em outubro e exclama: – Pai essa música é da trilha sonora do filme Alvim e os Esquilos……. penso cá com os meus botões. “Informação é algo que nunca é demais ou perdida! ” Lavando a louça em pleno domingão e crio um novo “rapport” com minha filha….

Boa semana e até a próxima.

 

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